“Quando todas as Mulheres de nosso tempo estiverem conscientes de que a exposição ao ridículo é apenas mais uma modalidade de discriminação do gênero – a merecer total repúdio, ainda que não vitime por igual a todas as pessoas do sexo feminino -, estaremos mais próximas do momento da igualdade absoluta dos gêneros da espécie humana”. Com este fecho em desabafo emocionado, a ex-ministra Anadyr de Mendonça Rodrigues chamou as mulheres advogadas a se posicionar contra o preconceito e a discriminação, dor que sentiu na pele quando esteve à frente da Corregedoria-Geral da União, no governo Fernando Henrique Cardoso.  A fala da ex-ministra ocorreu durante a abertura do II Painel “Questões do Feminino: Diferenças que somam”, promovido pela Comissão da Mulher Advogada da OAB/DF e deverá ser transcrita nos Anais da Câmara Legislativa do Distrito Federal a pedido da deputada Eliana Pedrosa, presente ao evento. Segundo ela, trata-se de uma caso emblemático, que mostra o grau de discriminação que a mulher ainda sofre na sociedade brasileira.  Atual corregedora-geral do Distrito Federal, Anady de Mendonça chorou ao lembrar o episódio que só muito tardiamente lhe proporcionou algumas manifestações de apoio e chamou a atenção para o fato de que, no momento em que mais sofreu críticas e zombarias por sua aparência física, “não houve um jornalista – homem ou mulher, ou entidade representativa de idosos – que tenha chegado a sequer comentar o fato, ou mesmo a estranhar a inusitada circunstância de estar sendo conferido à provecta mulher-ministra tratamento inédito e inaudito, que nenhum homem-ministro já houvera recebido, antes, em razão tão-só de sua condição masculina, fosse jovem ou idoso, bonito ou feio, elegante ou relaxado, com ou sem sombrancelhas”.  Depois de enumerar as críticas e seus autores, Anadyr de Mendonça disse que um período de calmaria que sobreveio à publicação de entrevista sua no Jornal do Brasil logo foi rompido pela divulgação de irregularidades detectadas pela Corregedoria-Geral da União na aplicação do FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador. Foi o bastante, segundo ela, para que se ressuscitasse imediatamente a questão de seus atributos físicos. “Isto, tão só porque ousara a ministra consentir na investigação das irregularidades detectadas pelo sistema federal de Controle Interno, em relação ao uso de recursos do FAT, Verba pública, pela entidade Força Sindical. Como se o fato de ser a Corregedora-Geral da União alguém bem ou mal amado influísse, de qualquer modo, na configuração do desvio de recursos públicos aplicados por uma entidade sindical…” , ironizou.  Após tentativas de reagir à situação, nas quais sempre acabava de um modo ou de outro tendo sua aparência desqualificada pela imprensa, Anadyr de Mendonça disse ter optado pelo “Nada a declarar”. O relato destes fatos – segundo ela um “lamento pessoal” – deixou-lhe uma indagação: “estes mesmos acontecimentos teriam ocorrido de modo igual se o Presidente da República, em 2/04/2001, houvesse nomeado um homem – e não uma mulher – para aquele cargo de Ministro de Estado? Penso que não. Afinal, o homem nomeado para o mesmo cargo, no governo Lula – com denominação atual de Controlador Geral da União – embora pessoa de mais idade do que a minha, ao que sei, nunca foi criticado por ser um idoso, nem jamais teve censurada sua aparência física ou seu modo de vestir ou calçar”..