A presidente da OAB-DF, Estefânia Viveiros, demonstrou surpresa e grande emoção durante o discurso como paraninfa da turma de Direito do UniCEUB. A solenidade foi na Academia Music Hall, no dia 11 de agosto.

Confira o discurso da presidente da OAB-DF:

Excelentíssimo diretor da Faculdade de Ciências Jurídicas e de Ciências Sociais, professor Paulo Roberto Thompson Flores, amigo e mestre querido. Senhores professores. Senhoras professoras. Alunos e alunas do Centro Universitário de Brasília que a partir de hoje, a partir de agora, encerram uma decisiva e importantíssima fase de suas vidas, ao concluir a formação acadêmica que os trouxe a esta casa e iniciar a caminhada profissional que os levará ao futuro. Caríssimos pais e caríssimas mães dos jovens formandos que aqui estão, e para os quais eu antecipadamente rendo e presto as minhas mais sinceras homenagens, porque sei que sem vocês, sem o imprescindível apoio familiar, este momento único na vida de seus filhos não seria possível. Minhas senhoras e meus senhores.

Estou surpresa – confesso a todos logo no primeiro instante. Emocionada, também. E principalmente honrada, essencialmente agradecida, por ter sido a escolhida para ser paraninfa da colação de grau de tantos e tão valorosos alunos, de tantas e tão especiais alunas, jovens com os quais convivi nos últimos anos nas salas de aula do UniCEUB.

A surpresa se deve à escolha, que eu não esperava. A emoção é por conta da homenagem, que devoto à gentileza de uns e à camaradagem de outros. E a honra e o agradecimento eu credito ao fato de ainda hoje, ainda agora, apesar das funções que prematuramente exerço e malgrado as responsabilidades que desde cedo assumi, me considerar muito mais uma aluna, muito mais uma companheira de estudos, muito mais uma colega de faculdade, e mais, muito mais, uma amiga de todos e de cada um de vocês.

Em resumo, ou em poucas e rápidas palavras, ainda não me acostumei à liturgia dos cargos que exerço e ainda não me habituei à solenidade dos ofícios que desempenho.

Ser paraninfa, pois, além de ser uma novidade, para mim é também uma homenagem e uma honraria que muito cedo se realizou e que por conta disso, por causa disso, me emociona sinceramente e me toca profundamente.

Mas deixemos de lado tantas e tão sinceras palavras de agradecimento, mostras e provas do bem-querer que tenho por vocês, e passemos de fato e de direito ao que interessa. E o que interessa neste momento, de fato e principalmente de direito, é transmitir às senhoras, é transferir aos senhores, os nossos últimos conselhos e as nossas derradeiras lições para a vida profissional que se abre diante de todos vocês a partir desta noite. Falei em conselhos, também em lições, e o que me vem à cabeça neste instante são duas frases que nortearam o meu caminho desde o início e serviram de ponto de partida para a minha vida pessoal e profissional. Uma das frases é de Fernando Pessoa, que certamente está entre os maiores escritores da língua portuguesa de todos os tempos.

A outra, de Albert Camus – o francês que encantou o mundo com palavras e conceitos inesquecíveis.

“Tenho em mim todos os sonhos do mundo”, escreveu Pessoa em um dos seus livros.

“Todas as gerações se julgam fadadas para refazer o mundo”, filosofou Camus no discurso que fez ao receber o Prêmio Nobel de Literatura.

Das duas frases, dos dois conceitos, pode-se extrair o segredo e o tempero da vida que nos espera e para a qual todos devemos nos entregar com a maior intensidade possível. Ter em nós mesmos todos os sonhos do mundo, como sugeriu o português Fernando Pessoa em um dos seus muitos e indispensáveis livros, é condição sine qua non não só para enfrentarmos os desafios que o dia-a-dia impõe, mas principalmente para não desistirmos nunca, e lutarmos sempre, em busca de uma sociedade mais justa.

Pensar e agir como se a nossa geração estivesse fadada a refazer o mundo, tal e qual sugeriu o francês Albert Camus em seu discurso de consagração literária, é uma forma eficaz e consciente de nos integrarmos e nos destacarmos junto às comunidades organizadas para conquistarmos dias melhores.

Alie-se os conselhos de Pessoa e de Camus às palavras sábias e eternas de São Francisco de Assis, e teremos o mote essencial que orientará para sempre as nossas vidas. São Francisco de Assis, o santo de devoção de meu Pai a quem venero e respeito desde criança, aconselhava a começarmos fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente, ou conseqüentemente, estaremos fazendo o impossível.

Sem cobrar honorários, repasso a vocês o ensinamento e peço que cada um reflita sobre o conselho de São Francisco de Assis e faça das suas palavras um guia procedimento, uma lição de convivência, um paradigma de comportamento.

Teoricamente, as senhoras e os senhores estão prontos para exercer em plenitude, com a competência que cada um tem e há de mostrar, a profissão para a qual estudaram nos últimos cinco anos. Enganam-se todos, porém, se pensam que o aprendizado terminou aqui, concluiu-se com o fim do curso, encerrou-se com a colação de grau que hoje coroa a trajetória acadêmica.

Da teoria à prática, agora começa verdadeiramente a fase de aperfeiçoamento dos seus currículos. E se “a prática é um professor excepcional”, como disse no começo dos tempos o escritor romano Plínio, agora, sim, as senhoras e os senhores terão a oportunidade única de esmerar o seu conhecimento, de construir a sua consciência e de polir o seu discernimento. Eu espero, sinceramente espero, que todos tenham sucesso.

E eu encerro a minha fala, o meu discurso, com o que disse e escreveu Hermann Hesse, o poeta e romancista alemão, naturalizado suíço, autor de Sidharta e O Lobo da Estepe. Abro aspas: “Nada lhe posso dar que já não existe em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo – e isso é tudo”.

Fecho aspas. E isso é tudo.

Muito obrigada.