Escrita por Honestino Monteiro Guimarães em carta enviada a sua mãe e irmãos, quando estava na clandestinidade, essas palavras seriam o prenúncio do que aconteceria com seu destino, nunca revelado.

Preso várias vezes por sua militância estudantil durante os anos de chumbo na Universidade de Brasília (UnB), Honestino é, entre os desaparecidos políticos, o que tem a história de desaparecimento mais nebulosa, segundo relatórios da Comissão da Verdade Rubens Paiva, do Rio de Janeiro, e da Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade, da UnB.

Honestino Guimarães era um jovem estudante de geologia. Em seu currículo, a marca de ter conquistado o primeiro lugar geral no vestibular da UnB.

Líder estudantil, foi eleito presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília (FEUB) mesmo sem se candidatar e durante um dos vários períodos em que passou preso.

Vascaíno fanático por futebol, procurava convencer seus companheiros de cela a torcer pelo Vasco da Gama.

Organizou em Brasília manifestações por ocasião da morte do estudante Edson Luís, em 1968, e liderou a articulação política para a realização do Congresso da União Nacional dos Estudantes – UNE, proibido pelo regime militar.

Mesmo sem ter elos com a guerrilha armada e sendo líder de atos pacíficos, viu a repressão se acirrar e sua perseguição aumentar perigosamente.

Honestino foi obrigado a viver na clandestinidade. Na condição de clandestino é que se deu seu casamento, realizado por uma procuração entregue a seu pai. Aliás, a repressão política também o impediu de estar presente ao funeral de seu pai, que tivera morte precoce num acidente de carro.

A última prisão de Honestino Guimarães se deu em outubro de 1973. Pouco se sabe sobre ele após essa data, e as informações dadas à família eram propositadamente desencontradas acerca do local onde teria sido detido e para onde teria sido levado, eternizando o sofrimento de uma mãe que nem sequer pôde enterrar o próprio filho.

Honestino enfrentou o regime militar em busca de um país que fosse norteado pela democracia.

A história de sua vida merece ser relembrada, e a insuportável ausência de informações sobre seu derradeiro destino precisa ser para sempre destacada.

Recentemente, Brasília o homenageou, mudando o nome da Ponte Costa e Silva para Ponte Honestino Guimarães.

Por razões formais no processo de tomada dessa decisão – ausência de consulta à comunidade brasiliense – o Poder Judiciário anulou a renomeação, retornando a ponte à designação anterior.

Há, no entanto, projeto de lei tramitando na Câmara Legislativa para que todas as etapas do procedimento de renomeação sejam observadas e assim tenhamos novamente um importante marco da memória, simbolizando uma ponte entre gerações.

Neste 31 de março, em meio ao sofrimento de tantas vidas perdidas pela pandemia, relembramos as vidas de tantos jovens que foram ceifadas pela repressão política, iniciada nesse dia, em 1964, com o golpe militar.

Hoje, a Comissão da Memória e Verdade da seccional do Distrito Federal presta esta homenagem, reafirmando a importância de políticas de reparação e memória em nosso país. Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.

Délio Lins e Silva Jr. presidente da Seccional do Distrito Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/DF)

Maria Victoria Hernandez Lerner, presidente da Comissão da Memória e da Verdade da OAB/DF

Juliana Gomes Miranda, secretária-geral da Comissão da Memória e da Verdade da OAB/DF