
Para honrar e celebrar o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, comemorada internacionalmente em 25 de julho, a Seccional do Distrito Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/DF) promoveu, nesta segunda-feira (21/07), uma roda de conversa para abordar vivências e análises sobre racismo, gênero e inclusão. A iniciativa foi realizada em parceria entre a Diretoria da Mulher, a Comissão de Igualdade Racial e a Comissão da Mulher Advogada.
Comemorada internacionalmente em 25 de julho, a data foi instituída em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, na República Dominicana. No Brasil, também simboliza o Dia Nacional de Tereza de Benguela, líder quilombola que se tornou ícone da resistência contra a escravidão e o racismo estrutural.
A roda de conversa teve a participação de cinco palestrantes, sendo elas: Vera Lúcia de Araújo, ministra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE); Marcelise Azevedo, advogada e conselheira da Comissão de Ética Pública da Presidência da República; Nadine Talleis, advogada; Tuanne Costa, presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB/DF e Nildete Santana de Oliveira, diretora da Mulher da OAB/DF
Ao abrir o evento, o presidente da OAB/DF, Paulo Maurício Siqueira (Poli), destacou o simbolismo da ocasião. “Esta é uma das noites mais marcantes que vivi nesta Casa. É um momento simbólico, transformador e necessário. A mulher negra precisa ocupar o centro dos espaços de decisão, e sua história deve ser reconhecida. O rosto da Dra. Vera, assim como o de tantas outras presentes, permanecerá gravado em nossa memória institucional.”

Poli também enfatizou a importância da representatividade e da inclusão racial na advocacia e nas comissões da OAB/DF. “Que esta seja a primeira de muitas noites como esta. Que os próximos anos tragam ainda mais mulheres negras ocupando os espaços que sempre lhes pertenceram por direito.”
Lenda Tariana, presidente da Caixa de Assistência aos Advogados do Distrito Federal, reforçou o caráter simbólico da roda de conversa. “Este movimento não é apenas uma celebração, é um grito de resistência. Minha mãe é minha inspiração diária, é por ela que e por todas as mulheres negras, que sentiram na pele as dores do preconceito, que estou aqui, para que possam ser vistas com orgulho, com líderes, como profissionais e com respeito.”

A diretora da Mulher da OAB/DF, Nildete Santana de Oliveira, defendeu a centralidade da interseccionalidade nas políticas institucionais. “Mulheres negras vivem realidades específicas que precisam ser reconhecidas. A interseccionalidade não é uma escolha, é uma necessidade. Precisamos de políticas públicas que considerem recortes de raça e gênero para promover equidade e justiça.”
Sthefany Vilar, presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB/DF, falou da importância do reconhecimento das raízes e das lutas que moldam a identidade das mulheres negras. “Eu não tenho como falar de gênero, eu não falo de raças. Eu não consigo dissociar os dois. Hoje é uma noite muito importante para a gente lembrar e mais do que lembrar, é enaltecer os nossos antepassados e a nossa ancestralidade. Hoje é um dia para celebrar e valorizar nossa ancestralidade. Cada uma de nós carrega uma história de superação. Este evento foi idealizado com muito carinho para garantir que nossas vozes sejam ouvidas e respeitadas.”

Resistência, superação e prática
No debate, a ministra substituta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Vera Lúcia de Araújo, compartilhou reflexões marcantes sobre sua trajetória e a luta coletiva da advocacia negra. Ela criticou a invisibilidade e a sub-representação das mulheres negras em espaços de poder, mesmo sendo maioria demográfica no país. “Se fosse por cota, teríamos que ocupar 56% dos espaços”, declarou, apontando que a luta por equidade não pode se limitar a ações simbólicas.

Vera reforçou a responsabilidade da advocacia na defesa da democracia e da Constituição. “Temos uma Constituição cidadã que nos prometeu um Estado de bem-estar social que nunca se materializou para o povo negro. Ainda assim, é esse Estado que devemos sustentar, porque fora do Estado Democrático de Direito, não temos nenhuma possibilidade.”
Desafios
Mulher negra, com deficiência e refugiada, a advogada Nadine Talleis contou que chegou ao Brasil após perder tudo em um terremoto. “Não tinha lugar para dormir. Quando cheguei no Acre, nunca imaginei que um dia seria advogada. Perdi meus pais aos nove anos e minha família dizia que eu não sobreviveria. Mas Deus quis diferente”, afirmou.

Nadine enfrentou diversos obstáculos, especialmente ao tentar ocupar vagas destinadas a pessoas com deficiência e negras. “Mesmo aprovada por cota PCD e preta, fui desclassificada por não conseguir passar por perícias. A banca dizia que eu não era suficientemente preta ou não tinha deficiência visível. Isso ainda está na Justiça.”
Em tom firme e reflexivo, a advogada Marcelise Azevedo, conselheira da Comissão de Ética Pública da Presidência da República, compartilhou a complexidade de ser mulher, negra e protagonista em espaços ainda majoritariamente brancos. “Chegar aqui não foi algo que imaginei quando comecei a advogar, ainda muito jovem. São 28 anos de formada e eu nunca pensei que estaria nesse lugar, como decana. A gente não imagina, a gente sequer vê chegar.”

Inspirada pela autora Ana Maria Gonçalves, citou a frase que a acompanhou durante o evento. “Temos que parar de nos contentar com a representatividade. Eu quero produzir presenças.” Para Marcelise, essa presença precisa ser crítica, ativa e questionadora. “Não podemos continuar entrando em espaços e aceitando sermos ‘a única’. Temos que dizer: ‘tá pouco, gente. Cadê o resto?’”
Ela ressaltou que já foi a primeira mulher negra em diversos espaços, como na Comissão de Ética Pública da Presidência da República. “Mas o protagonismo não pode ser solitário. Precisamos construir coletivamente. E exigir mais do que cotas simbólicas. Precisamos de epistemologias negras conduzindo as discussões,” completou.
Já Nildete defendeu a presença plural de mulheres nos espaços de decisão. “Eu quero mulher boa, mulher ruim, mulher competente, mulher comum. Quero mulher de todo tipo, como tem homem de todo tipo nos espaços de poder. A gente não precisa ser perfeita. Homem não precisa. Por que a gente precisa?”

A advogada destacou que a cobrança por excelência constante recai com peso sobre as mulheres, especialmente as negras. “Se a gente fala firme, é agressiva. Se o homem grita, é determinado. Chega disso.” Ela também fez críticas à paridade formal, que muitas vezes não se reflete em espaços reais de decisão. “Chegamos nas listas, mas não chegamos nos cargos. Queremos mais do que paridade de fachada. Queremos revezamento, presença real.”
Ao encerrar sua fala, Nildete anunciou o lançamento, no dia 25 de julho, de uma cartilha da Comissão de Igualdade Racial da OAB/DF, que homenageará mulheres negras latino-americanas e caribenhas que marcaram a história.
A mulher negra e a saúde mental
Por fim, Tuanne Costa, presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB/DF, abordou a urgência do cuidado com a saúde mental da mulher negra. “É a mulher negra que está sozinha. Que carrega tudo. Que dá conta de tudo. Mas ninguém vê. É a mulher da armadura invisível, que muitas vezes não tem sequer acesso à saúde básica, muito menos à saúde mental.”

Ela reforçou que as estatísticas de adoecimento entre mulheres negras refletem o racismo cotidiano e a solidão nos espaços de poder e decisão. “Todos os dias, nossa sanidade é testada. Quando confundem a gente com a funcionária do prédio. Quando não acreditam que aquele espaço também pode ser nosso. Quando crescemos sem nos ver representadas. Tudo isso nos afeta.”
Encerrando sua participação, reforçou a importância de políticas públicas que garantam acesso à saúde mental, não como um luxo, mas como um direito. “Cuidar da saúde mental da mulher negra é urgente. Porque estar viva, inteira, não pode ser exceção. E porque, infelizmente, nenhuma de nós passa um dia sequer sem lembrar que é negra. Essa lembrança vem do olhar atravessado, da exclusão silenciosa, da solidão institucional. Mas que a gente siga, mesmo com dores, construindo espaços onde viver seja possível e não apenas sobreviver.”
Fotos: Roberto Rodrigues.
Jornalismo OAB/DF
