OAB/DF capacita a advocacia para atuar na rede de proteção à criança e aos adolescentes - OAB DF

Ordem dos Advogados do Brasil Seccional do Distrito Federal

OAB/DF capacita a advocacia para atuar na rede de proteção à criança e aos adolescentes

Evento gratuito, realizado nesta terça (3), foi organizado em uma parceria entre a Comissão de Defesa dos Direitos da Criança, do Adolescente e da Juventude e a Escola Superior de Advocacia (ESA/DF): reuniu especialistas, delegados e promotores, integrantes do Poder Judiciário para integrar profissionais da advocacia ao fluxo de atendimento a vítimas de violência infantil e juvenil no Distrito Federal

Diante do aumento dos índices de violência doméstica e sexual contra menores, a Seccional do Distrito Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-DF) objetivou preencher uma lacuna na formação jurídica: o desconhecimento prático sobre o funcionamento intersetorial dos órgãos de defesa — que envolve desde o Ministério Público e delegacias especializadas até centros de apoio psicossocial.

Integração necessária

Para o presidente da comissão organizadora, Charles Bicca, a iniciativa responde a uma demanda urgente provocada pela escalada da violência, muitas vezes subnotificada. “Entendemos que existia uma demanda muito grande por conhecimento técnico nesta área. Vemos a violência aumentar a cada dia, inclusive com a descoberta de casos que talvez já ocorressem no passado, mas que não integravam as estatísticas oficiais”, afirma Bicca.

Charles Bicca, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança, do Adolescente e da Juventude

Segundo o advogado, que participou da elaboração do fluxo de atendimento da rede de proteção do Distrito Federal, a intenção é instrumentalizar a advocacia. “Nossa meta é capacitar o advogado e a advogada para que atuem junto à rede de proteção. Trouxemos o Ministério Público, a Vara de Violência Doméstica, o Conselho Tutelar e o Centro 18 de Maio para facilitar o entendimento sobre a prática do dia a dia para a advocacia”, completa.

O papel da advocacia na identificação de casos e no atendimento de seus clientes

A vice-presidente da Comissão, Maíra Gonçalves, destaca que o papel do defensor vai além do processo judicial; começa na capacidade de identificar violações. “É fundamental que o advogado esteja preparado para identificar situações de violência e também os mecanismos da rede de proteção. Só assim os profissionais poderão orientar seus clientes e em especial a vítima, para garantir proteção real”, explica Maíra Gonçalves. Segundo ela, o conhecimento do fluxo correto é determinante para a eficácia das medidas protetivas: “A advocacia sabendo onde buscar auxílio, seja no Estado, no Judiciário ou na autoridade policial poderá agir de forma efetiva”.

Cenário de violência intrafamiliar

Karina Soares Rocha recebe certificado pela participação no evento: ao lado de Charles Bicca, da vice-presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança, do Adolescente e da Juventude, Maíra Gonçalves, do secretário-geral da Comissão, Cristiano Rech e da agente de Polícia Kênia Ramos do Amaral Ribeiro

A promotora de Justiça Karina Soares Rocha, do Ministério Público do DF, alerta que o cenário atual exige um olhar multidisciplinar. Baseando-se em dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, ela aponta para o agravamento da violência dentro de casa.

“Os dados apontam um aumento na violência contra crianças e adolescentes notadamente no aspecto intrafamiliar. Acontecem dentro das casas maus-tratos e abuso sexual, o que torna ainda mais necessária a atuação do poder público”, diz a promotora. Rocha reforça que o curso visa oferecer aos advogados uma “visão ampla e intersetorial”, abrangendo tanto a repressão aos crimes quanto a proteção das vítimas de traumas.

A especificidade da investigação policial

E/D: secretário-geral da Comissão, Cristiano Rech, agente de Polícia Kênia Ribeiro, a vice-presidente da Comissão Maíra Gonçalves, o presidente Charles Bicca, e as palestrantes Joana D'arc Fernandes dos Santos; Tatiana Farias Moreira e delegada Isabela Albino

No âmbito da investigação, o curso esclarece as competências da DPCA (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente). A delegada Isabela Meirelles Albino e a agente de Polícia Kênia Ramos do Amaral Ribeiro explicaram como é feito, pela DPCA, o Depoimento Especial de Crianças e Adolescentes de modo a não ampliar os danos emocionais que já sofreram.

Segundo a delegada Isabela, embora todas as delegacias do DF estejam aptas a atender casos envolvendo menores, a DPCA mantém atribuições exclusivas para casos de maior complexidade e vulnerabilidade. “A DPCA realiza, exclusivamente, o depoimento especial de crianças entre 3 e 7 anos. Para crianças acima dessa idade e adolescentes, as demais delegacias já estão capacitadas”, esclarece a delegada. Isabela ressalta ainda complexidade técnica desse tipo de oitiva, que segue um protocolo rígido para evitar a revitimização.

Em sua apresentação a agente de Polícia Kênia Ribeiro trouxe a distinção em conceitos fundamentais trazidos pela Lei nº 13.431/17 (Lei da Escuta Protegida), que instituiu o sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência, visando evitar a revitimização ao estabelecer procedimentos para a escuta especializada e o depoimento especial.

A escuta especializada é o procedimento de ouvir a vítima e pode ser realizado pela rede de proteção (serviços de saúde e assistência social, escolas, por exemplo). Visa acolher e proteger a pessoa. É o relato inicial e voluntário. Acontece quando a vítima decide contar o que houve sem que ninguém pergunte ou provoque. Não serve de prova técnica. A pessoa a quem a vítima recorre deve ouvir e registrar os fatos nos órgãos competentes.

Já o depoimento especial é um procedimento oficial, que ocorre em um ambiente acolhedor e seguro, realizado por autoridade policial ou judiciária, com a participação de um profissional capacitado para realizar o interrogatório de forma adequada, evitando traumas adicionais. Aqui, sim, o objetivo é a produção de provas para o inquérito ou processo criminal. Exige um protocolo rígido, é gravado em áudio e vídeo e deve ser conduzido por policiais capacitados em ambiente preparado (como as salas lúdicas mostradas). A ideia é que a criança conte a história com detalhes uma única vez para a polícia, evitando ter que repetir a violência várias vezes (revitimização). Esse procedimento bem feito na delegacia pode instruir tudo o que se seguirá, evitando que a vítima tenha de seguir fazendo depoimentos – o que causa transtornos emocionais.

Acolhimento e aumento da denúncia

Outro pilar abordado no evento, pela manhã, foi o suporte psicossocial, exemplificado pelo trabalho do Centro Integrado 18 de Maio, referência no atendimento a vítimas de violência sexual. O local oferece escuta especializada e evita que a criança tenha que repetir sua história diversas vezes.

Joana D'arc Fernandes dos Santos, coordenadora do Centro 18 de Maio, e Tatiana Farias Moreira, assessora, relataram que a procura pelo serviço tem crescido — o número de atendimentos saltou de 225 em 2020 para 399 em 2024 (até o momento). Houve aumento de demanda não só por denúncias, mas também porque se ampliou a ação de prevenção e de conscientização nas escolas.

“Acreditamos que, quanto mais levamos informação e fazemos o trabalho preventivo, mais as crianças se sentem seguras para falar sobre o que estão vivenciando dentro de casa”, avalia Joana D'arc sobre o crescimento das atividades no Centro 18 de Maio. “A criança é sujeito de direito e tem voz. Antes, os casos eram guardados por medo; hoje, elas se sentem mais seguras para relatar a um colega ou professor”, observou a coordenadora.

Esses foram os painéis da manhã dessa programação. De tarde, o curso prosseguiu, trazendo debates sobre a Vara de Violência Doméstica, atendimento psicossocial (CEPAV), papel do Conselho Tutelar e medidas urgentes de proteção na advocacia.

Confira como foi a programação completa desse curso, a seguir:

PROGRAMAÇÂO DO EVENTO

Manhã:
9h30 – 10h00 | Painel 1 | Tema: Rede de Proteção: O que é? Onde ir? O que fazer? | Centro 18 de Maio – JOANA D'ARC FERNANDES DOS SANTOS / TATIANA FARIAS MOREIRA. Aborda a articulação entre os órgãos do Sistema de Garantia de Direitos.
10h00 – 10h30 | Painel 2 | Tema: MP em Ação: Respostas Institucionais à Violência contra Crianças e Adolescentes. KARINA SOARES ROCHA. Aborda aspectos legais e institucionais da intervenção ministerial.
10h30 – 11h00 | Painel 3 | Tema: Apresentação da DPCA e Atuação do Advogado. DPCA – DELEGADA ISABELA MEIRELES ALBINO E AGENTE DE POLÍCIA KÊNIA RAMOS DO AMARAL RIBEIRO. Aborda o funcionamento da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente.

Tarde:
14h00 – 14h30 | Painel 1 | Tema: O funcionamento da Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Criança e o Adolescente. VVDFCA – EUGÊNIA CHRISTINA BERGAMO ALBERNAZ
14h30 – 15h00 | Painel 2 | Tema: Flores em Rede: Programa para Pessoas em Situação de Violência. Tema Adicional: Acolhimento psicológico e atuação psicossocial na proteção infantojuvenil. CEPAV – GUAIA MONTEIRO SIQUEIRA
15h00 – 15h30 | Painel 3 | Tema: O Papel do Conselho Tutelar na Proteção Integral. Conselho Tutelar – CARLOS WAGNER PEREIRA DE SÁ
15h30 – 16h20 | Painel 4 | Tema: Fluxograma de Atendimento da Rede GGCORP em Casos de Violência Infantojuvenil. Centro 18 de Maio – NAYARA FERREIRA CHIANELLI
16h20 – 16h50 | Painel 5 | Tema: A Advocacia na Linha de Frente: Medidas Urgentes de Proteção. ANDERSON PINHEIRO DA COSTA
16:50h – 17h20 | Painel 6 | Tema: A Importância do Advogado de Família na Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes. MAÍRA SILVA RIBEIRO GONÇALVES
17h20 | Encerramento | Presidente da CDDDCAJ, Charles Bicca

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