Entre telas vibrantes e debates urgentes na OAB/DF, a exposição “Espectro Artista” e uma audiência pública histórica trazem à tona a urgência da inclusão escolar e a complexidade da dupla excepcionalidade

Quem entrou no Plenário José Gerardo Grossi, na sede da Seccional do Distrito Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/DF), na quinta-feira, dia 18 de junho, conferiu, pela manhã, as discussões sobre os gargalos da inclusão escolar para os neurodivergentes, durante audiência pública, e ali já estava montada uma mostra de cores vivas, traços expressivos e sensibilidade única: a exposição “Espectro Artista”, organizada pela PIPA (Pedagogia Inclusiva Pelas Artes). Foi de tarde que aconteceu com a presença dos artistas, professores, pais e direção da OAB/DF a inauguração. A mostra fica no espaço até a semana que vem.
Nesse recorte do acervo da PIPA há trabalhos de sete artistas do coletivo: Ariel Barreto (KING), Artur Pires (Artur P.), Guilherme Grosskopf (Gui), Hakim, Maria Clara (Clarinha), Mariana Veiga (Mari) e Vicente Falcão (#ZSP). Com técnicas que variam da aquarela à acrílica sobre tela, os jovens — que já participaram de festivais como o Motim — ocupam pela primeira vez um espaço institucional de relevância jurídica.

Representando o presidente da OAB/DF, Paulo Maurício Siqueira, Poli, o diretor de Prerrogativas Flávio Fonseca resumiu o sentimento que tomou conta do Plenário José Gerardo Grossi na inauguração dessa mostra: “Participar deste momento foi uma grande honra. Cada obra exposta carrega não apenas talento artístico, mas também histórias de superação, dedicação e inclusão. A OAB/DF reafirma, por meio de iniciativas como esta, seu compromisso com a construção de uma sociedade mais acolhedora, acessível e respeitosa com as diferenças. Essas crianças nos ensinam que não existem limites para a expressão da criatividade e da sensibilidade humana.”

O presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB/DF, Gerson Wilder Sousa Melo, prestigiou a abertura da exposição e celebrou o papel da OAB/DF como indutora de políticas públicas. Ele reforçou a mensagem deixada pela audiência da manhã: “Precisamos incluir, participar e tornar a sala de aula um lugar heterogêneo. É na convivência entre típicos e atípicos que construímos uma sociedade real.”
Lembrando que as pessoas com deficiência devem ser acolhidas com empatia prática, Gerson destacou que no cotidiano as pessoas devem adotar gestos simples, como ter o hábito de realizar a autodescrição: “Estou de terno azul, camisa azul, gravata azul e portando o meu cordão de girassol. Meu sapato é preto, estou com a barba por fazer, cabelo curto e óculos ovalado.
Fazer apresentações com essa auxiliam que pessoas cegas ou com baixa visão consigam compreender o todo; garante autonomia e promove a inclusão em qualquer ambiente ou ocasião.
A voz que a tela liberta

Falando da mostra e de todo o trabalho realizado, Melina Sales, idealizadora da PIPA e ativista da causa das pessoas com deficiência, informou que buscou “trazer para um espaço institucional a voz e a visibilidade de pessoas que passaram muito tempo sem poder se expressar”. O projeto, que há três anos atua na intersecção entre arte e desenvolvimento humano, levou à OAB/DF apenas um recorte especial de seu acervo.

Segundo Melina, a produção dos jovens é intensa, muitas vezes alimentada pelo hiperfoco — aquela capacidade de concentração profunda em um tema de interesse que caracteriza muitos autistas. Na exposição, as obras encantam: “Quem sabe daqui para frente não teremos grandes artistas em potencial? Na verdade, eu acho que já temos”, sorri Melina, orgulhosa de cada conquista que vai além da arte, pois compreende o desenvolvimento humano dos artistas, dos pais e educadores.
O responsável por lapidar esses talentos é o curador e professor Cirilo Quartim, que soma 27 anos de experiência no mercado de arte. Para a mostra na OAB/DF, ele reuniu obras de sete alunos com diferentes neurodiversidades. O método de Cirilo foge do tradicional: ele investiga os interesses individuais de cada aluno, apresenta referências visuais e estéticas e atua como um facilitador.
“Eu dou aula, sou o suposto professor, mas junto deles eu sou aluno. Aprendo demais. Acontece primeiro uma investigação, depois uma mentoria e, por fim, uma amizade. Eu fico apenas como um copiloto da história, dando corda para eles voarem”, define Cirilo.
“Eu quero o mundo”

Uma das artistas sob as asas de Cirilo é Maria Clara, a Clarinha, de 33 anos. Ela tem síndrome de Down, e ali, com orgulho, mostrava três de suas telas: uma representação do Ipê Amarelo, uma paisagem inspirada no Cerrado e um jardim que conduz o olhar do espectador em direção a uma cachoeira. Esta obra é a capa de um calendário deste ano, feito pela Associação DFDown, instituição da qual Clarinha participa como diretora.
Clarinha também é assessora parlamentar, coordenadora da Frente Parlamentar da Síndrome de Down da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) e modelo. Já fez oito anos de teatro e atuou em um filme gravado no sul do país.
Para Maria de Fátima Machado de Israel, de 69 anos, ver a filha ocupar espaço como o da OAB/DF é a coroação de uma jornada que começou há mais de três décadas, quando o termo “inclusão” nem sequer fazia parte do vocabulário social ou das políticas públicas. “A primeira preocupação era: essa criança tem condições de aprender? Como vai ser o desenvolvimento dela?”, recorda.
Com apenas 20 dias de vida, Clarinha começou as sessões de fonoaudiologia — tratamento que mantém até hoje. O segredo para chegar aqui, segundo a arquiteta, foi uma mudança de perspectiva familiar, que ela aconselhou a quem tem familiares neurodivergentes: “A família precisa se desligar um pouco da questão do diagnóstico e enxergar a criança, o ser humano que está ali. Toda criança precisa brincar, conviver, ir para a escola. Essa foi a vida da Clarinha.”
Maria de Fátima também falava sobre os próximos passos da filha na faculdade, quando Clarinha, com muita determinação, disse que sabe exatamente onde quer chegar. “Eu quero três coisas: formação em eventos; em redes sociais e em artes plásticas. Eu quero o mundo.”
O traço de Ariel e o enigma de Vegapunk

Aos 19 anos, Ariel Barreto desenha o que ama. Ela estuda Design de Animação e levou para a exposição ilustrações inspiradas no anime One Piece, desenhadas no estilo chibi (personagens com cabeças proeminentes e corpos pequenos). Sua obra retrata o “Dr. Vegapunk” e seus “satélites”. Vegapunk foi criado pelo autor de mangaká Eiichiro Oda, que o desenhou inspirado em figuras históricas da ciência, como Albert Einstein e Isaac Newton.
Na reconstituição deste universo do mestre Oda, Ariel diz que “a parte mais difícil de sua composição foi colocar todos os personagens no lugar deles”. Foi desafiador: “Nunca tinha desenhado tantos juntos”, conta a jovem artista.
A mãe de Ariel, Luiza Barreto, de 47 anos, contou que vivencia a maternidade atípica com ela, que tem autismo nível 1 de suporte, e também com mais um filho, Eric, de 10 anos, autista nível 2 de suporte.
A trajetória dos dois revela as nuances do espectro. Enquanto o autismo de Ariel só foi diagnosticado tardiamente, aos 16 anos — após passar a infância sendo identificada apenas com altas habilidades —, Eric apresenta desafios de suporte físico e comunicação mais severos, embora guarde uma genialidade cada vez mais surpreendente.
“O Eric sabe identificar e ler mais de 20 línguas. Outro dia ele estava falando armênio. Ele é extremamente independente para tarefas cotidianas, faz o próprio lanche no micro-ondas, mas precisa de um monitor em tempo integral na escola para mantê-lo seguro e focado”, relata Luiza.
A mãe aponta que a transição da escola pública para a particular foi necessária no caso de Eric, devido à rotatividade de educadores sociais no sistema público do DF, o que desestabilizava o filho. Ela também ressalta que as altas habilidades trazem suas próprias barreiras: “A Ariel sofria muito na escola com a repetição. Se ela já tinha aprendido a matéria e feito uma prova, não via sentido em fazer uma segunda avaliação idêntica. A pessoa genial também sofre, porque é atípica.”
A dupla invisibilidade da mente extraordinária

Essa “invisibilidade dos geniais” foi o tema central do depoimento de Robertha Ferreira, presidente do Instituto Raises, durante a audiência pública realizada pela manhã. Mãe atípica, Robertha explicou que tem “dupla excepcionalidade”: ela é autista e superdotada. Seu filho, Rafael, de 10 anos, compartilha da mesma condição e, recentemente, tornou-se a primeira criança do Brasil a ter uma fórmula matemática validada por professores da Universidade de Brasília (UnB).
“Quando falamos sobre autismo, quase sempre focamos apenas nas dificuldades. Ao fazermos isso, ignoramos os autistas com potencial cognitivo elevado”, alertou Robertha.
“A pessoa duplamente excepcional vive uma dupla invisibilidade. Nas discussões sobre altas habilidades, suas necessidades de apoio relacionadas ao autismo são frequentemente ignoradas. Já nas discussões sobre autismo, seus talentos, o seu potencial elevado, muitas vezes, também é ignorado. Assim, ele acaba não sendo visto nem em um espaço e nem em outro”, explicou Robertha. Ela ponderou que é preciso “ampliar as nossas políticas públicas, pesquisas e debates para dar visibilidade a essa dupla excepcionalidade também”.
Robertha destacou o pioneirismo da Subseção do Riacho Fundo e Recanto das Emas da OAB/DF, presidida pela advogada Priscilla Carvalho Sobrinho, que constituiu a Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Altas Habilidades, Superdotação e Dupla Excepcionalidade. “Precisamos que as instituições nos abracem por inteiro”, observou.
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Fotos: Roberto Rodrigues e Alex Bandeira
Jornalismo OAB/DF
