Na abertura da IV Conferência Distrital da Mulher Advogada, as dirigentes Nildete Santana de Oliveira, Patrícia Landers e Graciela Slongo propuseram a quebra de padrões rígidos para mulheres e a consolidação de redes de acolhimento na advocacia

A IV Conferência Distrital da Mulher Advogada, com abertura realizada dia 26 de maio, no Teatro Nacional Cláudio Santoro, consolidou-se como um espaço de profunda reflexão sobre a identidade, a saúde mental e o papel institucional das mulheres na advocacia. Sob o lema “Capacitar, Conectar e Pertencer“, o encontro possibilitou às dirigentes Nildete Santana de Oliveira (diretora da Mulher Advogada da OAB/DF), Patrícia Landers (presidente do Colégio de Subseções) e Graciela Slongo (secretária-geral da Caixa de Assistência dos Advogados do DF – CAADF) apresentarem discursos convergentes e complementares.
As apresentações propuseram uma mudança estrutural no cotidiano profissional, defendendo que o avanço das mulheres não deve exigir o endurecimento de suas identidades, mas sim a valorização de suas trajetórias singulares e a criação de redes reais de acolhimento.
Nildete Santana: o tempo e a autenticidade como resistência

A diretora da Mulher Advogada da OAB/DF, Nildete Santana de Oliveira, trouxe uma densa análise humanista e filosófica, resgatando a memória de pioneiras como Esperança Garcia e Mirtes Gomes de Campos para demonstrar que o exercício da advocacia feminina é, historicamente, um ato contínuo de afirmação.
Apoiando-se em conceitos de Simone de Beauvoir, Jean Baudrillard e Umberto Eco, Nildete questionou a lógica de produtividade exaustiva e a busca incessante por validação externa que caracterizam a rotina jurídica.
“Se tentaram nos ensinar que sucesso era acumular títulos, aparências, performances, reconhecimentos, bens, possivelmente o verdadeiro luxo seja exatamente o contrário. […] O verdadeiro luxo é ter tempo. Tempo para existir sem precisar provar o tempo inteiro que existimos. Tempo para respirar, tempo para descansar sem culpa, tempo para olhar nos olhos de quem amamos, tempo para ouvir de nós mesmas”, afirmou Nildete.
A diretora defendeu a singularidade e a preservação da sensibilidade como atos de coragem ética frente às pressões por padronização comportamental: “Sermos diferentes é um ato de coragem. Sermos autênticas é quase uma rebeldia ética. Cada mulher é irrepetível. Cada uma carrega uma força que nunca existirá novamente da mesma forma. […] Mulheres verdadeiramente fortes não são aquelas que endurecem completamente; são aquelas que conseguem permanecer humanas apesar de tudo”, concluiu Nildete.
Patrícia Landers: a voz coletiva das Subseções

Trazendo a perspectiva das profissionais que atuam nas diversas regiões administrativas do Distrito Federal, a presidente do Colégio de Subseções, Patrícia Landers, que é presidente da Subseção de São Sebastião, destacou que o pertencimento das mulheres aos espaços de poder não é uma concessão, mas um direito consolidado por mérito e trabalho.
“Falar da mulher advogada é falar de histórias de coragem. Mulheres que abriram caminhos onde antes existiam barreiras. Que transformaram dúvidas em competência, obstáculos em aprendizado, silêncio em voz e invisibilidade em protagonismo. […] Esta conferência nos responderá com firmeza: sim, nós pertencemos. Pertencemos aos tribunais, às diretorias, às presidências, às comissões, aos grandes debates jurídicos, aos espaços de liderança, aos lugares onde decisões são tomadas”, disse Patrícia Landers.
Patrícia Landers também enfatizou que a união entre advogadas de diferentes realidades territoriais é o motor para transformar a advocacia em um instrumento efetivo de mudança social: “Representando as Subseções do Distrito Federal, eu trago hoje a voz de mulheres advogadas de diferentes realidades, diferentes cidades, diferentes desafios… mas unidas por uma mesma essência: a vontade de fazer da advocacia um instrumento de transformação. Mulheres que não desistiram. Mulheres que continuam. Mulheres que inspiram.”
Graciela Slongo: o fim do pedido de licença para pertencer

Representando a presidente da CAADF, Lenda Tariana — primeira mulher a presidir a Caixa de Assistência na história da Seccional —, a secretária-geral Graciela Slongo trouxe questionamentos práticos sobre a persistência das desigualdades de gênero no cotidiano profissional em pleno ano de 2026.
“Por que ainda precisamos de uma conferência específica para mulheres? Por que ainda precisamos explicar, no ano de 2026, a importância de discutir pertencimento, espaço, voz, respeito e oportunidades? […] Talvez porque alguns deles ainda sejam sentidos diariamente em silêncios, interrupções, desigualdades, cobranças e desafios que nós, mulheres, seguimos enfrentando em todos os espaços — inclusive na advocacia, seja dentro da nossa casa e muito ainda fora dela”, questionou Graciela Slongo.
Graciela, que relembrou sua própria trajetória inspirada por lideranças como a ministra Daniela Teixeira e a de Nildete Santana, ressaltou que a presença feminina nos espaços de decisão deve ser exercida com autonomia e sem necessidade de validação externa: “Pertencer não é pedir licença. Pertencer é reconhecer que este espaço também é nosso. E quando uma mulher avança, ela não avança sozinha. Ela abre caminhos, inspira outras e transforma estruturas. […] Estaremos aqui capacitando mulheres para que ocupem espaços, conectando histórias para que nenhuma caminhe sozinha e fortalecendo o sentimento de pertencimento para que toda mulher saiba que ela não só pode, mas hoje deve galgar seu espaço.”
Conexão com a base e redes de alteridade
Os discursos das três dirigentes convergiram diretamente com a linha defendida pela organizadora da conferência, Sthefany Vilar, sobre a necessidade de combater a autocobrança excessiva e a sensação de insuficiência que frequentemente afetam as advogadas. Ao final, as palestrantes reforçaram o apelo para que as profissionais estabeleçam laços de solidariedade e cooperação mútua, superando a lógica da concorrência interna.
Disse Nildete: “Nenhuma mulher cresce isoladamente. Tracem redes de alteridade, façam conexões, façam networking sim, mas façam também acolhimento. Construam pontes, compartilhem oportunidades, celebrem as conquistas umas das outras sem sentir que o brilho da outra obscurece o próprio brilho. […] Quando uma mulher estende a mão para outra mulher, nós interrompemos séculos de isolamento e criamos algo poderoso, que é o pertencimento.”
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Fotos: Roberto Rodrigues e Alex Bandeira
Jornalismo OAB/DF
