Cigarro Eletrônico: podcast alerta pais e sociedade sobre os riscos à saúde de crianças e adolescentes - OAB DF

Ordem dos Advogados do Brasil Seccional do Distrito Federal

Cigarro Eletrônico: podcast alerta pais e sociedade sobre os riscos à saúde de crianças e adolescentes

Em meio ao aumento do consumo de cigarros eletrônicos por adolescentes no Brasil, a Comissão de Defesa dos Direitos da Criança, Adolescente e Juventude da Seccional do Distrito Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/DF) promoveu um episódio especial do seu podcast para debater os riscos dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs).

Com participação da pneumologista Maria Enedina, presidente da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia, o episódio destacou os impactos à saúde pública, como doenças pulmonares, dependência química e danos neurológicos precoces, especialmente entre os mais jovens.

De acordo com o Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), 8,7% dos adolescentes de 14 a 17 anos fumaram cigarros eletrônicos no último ano, enquanto apenas 1,7% declararam ter usado o cigarro convencional. O estudo também aponta maior prevalência entre meninas e uma alta taxa de conversão para o uso regular dos dispositivos. Confira os dados completos da pesquisa.

Um problema de Saúde Pública

Embora muitas vezes vistos como alternativa “menos prejudicial” ao cigarro convencional, os cigarros eletrônicos representam uma séria ameaça à saúde. Segundo Enedina, esses dispositivos contêm mais de 2.000 substâncias químicas, entre elas nicotina, propilenoglicol, glicerol, vitamina E e até derivados de cannabis e anfetaminas. “O pulmão não foi feito para receber substâncias químicas em forma de vapor”, alertou. A médica explicou que a inalação pode provocar lesões pulmonares graves, como a EVALI (lesão pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos), que pode levar à insuficiência respiratória e até à morte.

O podcast destacou, entre os relatos mais graves, a morte de uma adolescente de 15 anos, em Brasília, vítima de complicações causadas pelo cigarro eletrônico. “Ela apresentava tosse crônica e sintomas inicialmente confundidos com infecções respiratórias. Só na última internação foi identificado o uso do cigarro eletrônico”, relatou Enedina. Casos como esse não são isolados. Em 2019, os Estados Unidos registraram 68 mortes relacionadas ao uso de vapes. No Brasil, já há registros de óbitos em Brasília e São Paulo, todos envolvendo jovens menores de 18 anos.

A atração perigosa do Vape

O apelo visual dos cigarros eletrônicos é um dos principais fatores que seduzem adolescentes. Disponíveis em formatos que imitam batons, pen drives e garrafinhas de bebidas, com cores vibrantes e sabores atrativos como morango e pêssego, esses dispositivos são desenvolvidos para cativar os jovens consumidores. Além disso, o marketing agressivo da indústria tabagista contribui para a banalização do produto, vendendo como algo inofensivo ou até glamouroso. “A indústria tabagista diversifica seus produtos para viciar jovens e adolescentes”, relatou a convidada.

Ela também destacou que a dependência química causada pela nicotina é reconhecida como doença (CID F17) e pode levar a quadros severos, como câncer, doenças cardiovasculares, neurológicas e pulmonares, incluindo bronquiolite obliterante e fibrose pulmonar.

Regulação

No Brasil, desde 2009, a Anvisa proíbe a importação, comercialização, transporte e propaganda dos cigarros eletrônicos (RDC 46/2009). No entanto, o comércio ilegal persiste, com dispositivos sendo vendidos livremente em diversas regiões. Diante desse cenário, Enedina defendeu uma fiscalização mais eficaz e punições mais severas, como a cassação do CNPJ de estabelecimentos que vendem os produtos.

No cenário internacional, países como Canadá e Inglaterra enfrentam desafios com a legalização parcial dos vapes. Na Inglaterra, que inicialmente viu o vape como uma ferramenta para cessação do tabagismo, percebeu que ele não reduziu o uso de cigarros convencionais e agora busca proibi-lo. “A Inglaterra passou a utilizar o cigarro eletrônico como se fosse adesivo de nicotina, como se fosse goma de mascar, ou seja, é uma suplementação de nicotina. Com o passar do tempo, a Inglaterra percebeu que as pessoas não paravam de fumar o cigarro de papel. Ou elas permaneciam no cigarro eletrônico ou elas voltavam para o cigarro de papel,” apontou a palestrante.

Já no Canadá, mesmo com restrições de saborizantes e limites de nicotina, o consumo entre jovens quadruplicou. “Eles reduziram para 20 mg e mesmo assim, estão apavorados porque aumentou quatro vezes mais o consumo de cigarro eletrônico nos jovens do que quando o cigarro eletrônico apareceu no Canadá.”

“Quem usa adoece e quem está ao lado também”

Enedina alertou ainda para os riscos da exposição passiva ao vapor do cigarro eletrônico. “Ao mesmo aquele indivíduo está colocando a fumaça e ele põe para fora, ele põe no ambiente. É uma fumaça carregada de substâncias químicas. Eles brincam de fazer fumaça, de vaporizar qual é o maior, qual é o mais intenso. Isso vai ser respirado, e se uma pessoa que é portadora de asma, estiver numa boate, em um ambiente, em um bar que esteja com esse nível de fumaça, ela pode sair dali para o pronto-socorro com a crise de asma.”

O mesmo vale para indivíduos com DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica). “Ele pode sair direto para uma emergência com uma crise de aumento de pressão, aumento de frequência cardíaca e problemas cardiocirculatórios. Não é só aquela pessoa que está usando cigarro eletrônico que está prejudicando a sua saúde, está prejudicando ao redor. Se for um pai que tem criança, aquela criança vai ter crise de asma, vai ter mais infecção viral e pneumonia. Cigarro eletrônico é pior. É pior porque é uma intensidade muito maior, é uma dependência química maior, é uma mortalidade muito precoce, é um adoecimento muito mais precoce,” endossou.

Educação e prevenção

Diante do agravamento da situação, o Congresso analisa um projeto de lei que propõe a inclusão da educação sobre os riscos dos cigarros eletrônicos no currículo escolar a partir dos 10 anos, idade anterior à média da primeira experimentação, que é de 13 anos. Programas como o Proerd, da Polícia Militar, também passaram a abordar o tema em suas ações. Além disso, uma nota técnica do Ministério da Saúde orienta médicos a questionarem o uso de DEFs durante consultas e a registrarem casos de EVALI com o código específico (U07).

Charles Bicca reforçou o compromisso em unir esforços com a Sociedade Brasileira de Pneumologia e outras entidades para combater os cigarros eletrônicos. “Nosso foco é a proteção da infância e da adolescência. Esses dispositivos estão destruindo não só os pulmões, mas também o cérebro em formação dos jovens”, alertou.

Ao final do episódio, Enedina fez um apelo aos pais. “Não comprem vapes para seus filhos. Não é um brinquedo, não é inofensivo. É uma questão de vida ou morte”. Ela também apontou as consequências. “As substâncias alteram a parte neurológica a ponto dele ficar com dificuldade de concentração, com irritabilidade, com ciclo do sono alterado. Se um adolescente dormia bem, era mais tranquilo e o pai percebe que ele começa a ficar irritado, uma das possibilidades é ele estar usando vape. Nicotina é droga, é dependência e causa doenças.”

Assista ao episódio completo:

Jornalismo OAB/DF

Deixe um comentário