Podcast da OAB/DF aborda a saúde mental de autistas e o papel essencial da rede de apoio familiar - OAB DF

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Podcast da OAB/DF aborda a saúde mental de autistas e o papel essencial da rede de apoio familiar

Evento foi iniciativa da Comissão de Direito da Pessoa com Autismo da Subseção de Águas Claras

A saúde mental de crianças e adolescentes autistas, bem como o impacto profundo nos seus cuidadores, foi o tema central do podcast “OAB atípica: vozes da inclusão – Episódio Setembro Amarelo: acolhimento, escuta e cuidado na vida das pessoas autistas”, realizado na quinta-feira (25) e transmitido pelo canal oficial da OAB/DF no Youtube. O debate tratou da complexidade do Transtorno do Espectro Autista (TEA), das dificuldades inerentes ao diagnóstico e acompanhamento, e da necessidade de uma rede de apoio sólida e compreensiva.

As advogadas Giuliane Dias e Caroline Oliveira, presidente e vice-presidente da Comissão de Direito da Pessoa com Autismo da Subseção de Águas Claras foram mediadoras.

As palestrantes foram: Dra Patrícia Parreira, médica neuropediatra do COMPP/SESDF, preceptora do Programa de Residência de Pediatria da SES-DF, orientadora da Liga Acadêmica de Neurociências Pediátricas do DF e Raquel Rodrigues, advogada, mãe e esposa atípica; especialista em Direito do Autista, pós-graduanda em Direito Previdenciário e Direito do Trabalho.

O diagnóstico como guia, não uma sentença

Para a neuropediatra Patrícia Parreira, um dos maiores desafios dos profissionais da saúde é comunicar o diagnóstico sobre o TEA. Ela fala da necessária sensibilidade que é preciso ter ao dar a notícia.

“O diagnóstico não é uma sentença, mas sim um GPS, um guia que aponta o melhor caminho para que a pessoa possa atingir seu maior potencial”, afirmou a neuropediatra, que ressaltou também que passado o “luto” pela perda do filho ou da filha sonhados, imaginado pelos pais, é fundamental aceitar a neurodiversidade, evitando a tentativa de “transformar o autista em uma pessoa típica”, o que, segundo ela, gera um sofrimento mental significativo tanto para a pessoa quanto para a sua família.

A advogada Giuliane Dias, comentando essa questão, mencionou que o diagnóstico pode ser libertador. “Você consegue entender o porquê daquele seu jeito de socializar”, explicou, citando o caso de um autista diagnosticado aos 45 anos que descreveu a experiência de saber sobre si como um “alívio imenso”.

Perceba os sinais de sofrimento mental e a urgência do cuidado

Um ponto essencial no debate deste podcast é a distinção entre comportamentos típicos do autismo e sinais de sofrimento mental, como ansiedade e depressão. A Dra. Patrícia Parreira alertou que o agravamento de estereotipias, aumento da irritabilidade e problemas de sono são indicadores de que a criança ou adolescente autista pode estar passando por um sofrimento. “Sempre que seu filho estiver piorando, regredindo ou perdendo habilidades, o alerta deve ser ligado. Ele pode estar passando por algum tipo de sofrimento”, pontuou.

O sono, em particular, foi extensivamente discutido. Dada a alta prevalência de distúrbios do sono em autistas (40% a 80%), a organização da rotina e do ambiente de sono é fundamental. A exposição a telas, especialmente na adolescência, foi apontada como um fator que piora a ansiedade e o isolamento, além de interferir diretamente na produção de melatonina, o hormônio do sono.

A força da equipe multidisciplinar e a realidade dos cuidadores

A atenção às pessoas autistas exige uma abordagem individualizada e multidisciplinar. A Dra. Patrícia Parreira enfatizou a necessidade de os pais e responsáveis lerem relatórios de terapeutas e manterem contato constante com a equipe que os atende, buscando a compreensão integral de cada pessoa.

A Dra. Raquel Rodrigues explicou que tem duas filhas autistas e ao longo da sua jornada descobriu que o marido também é. O debate tratou das questões genéticas nos casos de autismo. Não é raro que, ao descobrir que um filho ou uma filha é autista, depois se saiba que outras pessoas da família são, o que desfaz mitos sobre causas como medicamento e vacinas, e liberta da sensação de culpa, especialmente das mães.

A advogada descreveu a exaustão física e mental, a privação de sono por anos a fio e a constante vigilância sobre as filhas, e que enfrentou crises de ansiedade na infância e até automutilação na adolescência. A Dra. Patrícia Parreira mencionou que esse tipo de estresse, conforme estudos já realizados sobre mães atípicas, é comparável ao de um “soldado em guerra”.

Outro aspecto relevante na narrativa da Dra Raquel Rodrigues é a dificuldade de conciliar o autocuidado com as demandas incessantes, porque se instala o sentimento de culpa na mãe. “A gente se sente culpada pelo autocuidado todos os dias”, confessou. Seu depoimento foi uma lerta para a sociedade sobre a necessidade de estender o apoio não apenas aos autistas, mas às suas famílias. Ainda um sinal para as mulheres perceberem que podem e devem cuidar de si, enquanto estão envolvidas nas questões das pessoas de sua família.

Inclusão vai além da mera integração: pequenos gestos, grande impacto

O conceito de inclusão, em contraste com a mera integração, foi destacado como um caminho para tornar o ambiente “igualmente bom para qualquer pessoa”. Pequenos gestos, como a adaptação de perfumes por colegas, uma dica da Dra. Caroline Oliveira, pode evitar desconforto sensorial, por exemplo. A inclusão deve ser construída por meio da empatia e da vontade de compreender as necessidades do outro.

Um chamado à consciência e à ação

Entrega do certificado de participação a Patrícia Parreira e Raquel Rodrigues

A realidade apresentada no podcast, conforme destaca a Dra. Giuliane Dias, é um chamado à consciência para a sociedade e, em especial, para a comunidade jurídica. Para ela, o papel da OAB/DF transcende a defesa dos direitos legais, englobando a promoção da inclusão e o apoio às famílias atípicas.

Compreender os desafios vivenciados por autistas e seus cuidadores é o primeiro passo para a construção de políticas públicas eficazes, ambientes mais acolhedores e uma sociedade verdadeiramente inclusiva, onde o “GPS” do diagnóstico leve todos ao melhor caminho.

Participantes do podcast e membros da Comissão de Direito da Pessoa com Autismo da Subseção de Águas Claras, André Vaz e Bruno Rodrigues

Veja na íntegra este podcast!

Fotos: Ronaldo Debret

Jornalismo OAB/DF

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