O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que se manifesta de formas muito diversas, o que faz com que nem sempre seja fácil identificar uma pessoa no espectro ou compreender seus comportamentos em ambientes públicos, como lojas e shoppings.

Para falar desse tema e oferecer informações para melhor interação com autistas no ciclo “Orgulho Autista”, promovido pela Comissão de Direito da Pessoa com Autismo da Subseção de Águas Claras da OAB/DF, por ocasião do Dia do Orgulho Autista (18 de junho), foi convidado o professor Tolentino, profissional de Educação Física e psicopedagogo, pedagogo, psicomotricista, um especialista com mais de 10 anos de atuação com pessoas neurodivergentes. Ele falou aos funcionários e lojistas do Shopping Felicittá, que é parceiro na iniciativa da Subseção. Proferiu palestras em dois dias: na segunda-feira (16) e na terça-feira (17).
Professor Tolentino tem vasta formação em Educação Especial, ABA e Neuropsicopedagogia. Em sua experiência, destacou que o TEA é chamado de “espectro” justamente por sua gama de manifestações, que variam de leves a severas. Compreender essa diversidade é o ponto de partida para uma interação mais respeitosa e eficaz.
Identificando sinais no espaço público
O material de sua palestra, que se assemelha a um guia prático, aponta que “nem sempre o autismo é visível”, mas alguns sinais observáveis podem indicar que a pessoa está no espectro ou enfrentando algum tipo de desconforto sensorial ou social. Entre os sinais e o que podem representar, ele listou:
- Uso de abafadores de som ou fones grandes: frequentemente indica sensibilidade auditiva a sons altos ou ambientes barulhentos;
- Acompanhamento com crachás (familiar ou profissional): pode sinalizar a necessidade de apoio individualizado:
- Balançar o corpo, tampar os ouvidos, falar sozinho: são estratégias de autorregulação usadas frente ao estresse ou sobrecarga sensorial;
- Reações intensas a luzes ou música alta: manifestação de hiperreatividade sensorial a estímulos visuais ou sonoros;
- Pouco ou nenhum contato visual: pode ser um sinal de dificuldade de interação social ou sobrecarga com o estímulo visual direto;
- Fala diferente, ecolalia (repetição de palavras ou frases) ou ausência de fala: representa formas distintas de comunicação, verbal ou não verbal;
- Evita aglomerações ou locais movimentados: demonstra preferência por ambientes calmos devido à sensibilidade sensorial ou social;
- Resistência a mudanças de rotina: indica a necessidade de previsibilidade e segurança;
- Foco intenso em temas específicos: caracteriza interesses restritos, mas profundos;
- Não responde ao ser chamado pelo nome: pode ser dificuldade de atenção compartilhada ou compreensão de sinais sociais;
- Expressões faciais limitadas: a comunicação não verbal pode ser menos expressiva;
- Brincadeiras repetitivas com objetos (girar, alinhar): padrões repetitivos que podem ser estimulo sensorial ou padrão motor;
- Andar nas pontas dos pés com frequência: pode ser um estimulo sensorial ou padrão motor repetitivo.
Abordagem Respeitosa
Professor Tolentino enfatizou que a forma como nos aproximamos e interagimos pode fazer toda a diferença. Ele ofereceu um conjunto de dicas para uma abordagem respeitosa.
Dê opções claras em vez de perguntas abertas, por exemplo, fale: “você prefere suco ou água?” Isso facilita a resposta e reduz a ansiedade. Ele ainda listou:
- Use linguagem literal e evite sarcasmo: muitas pessoas autistas interpretam a linguagem de forma concreta;
- Utilize recursos visuais quando possível: apoiam a compreensão e reduzem a ansiedade;
- Aceite comportamentos repetitivos: são formas legítimas de autorregulação emocional e sensorial;
- Respeite o espaço pessoal: aproximações inesperadas podem gerar desconforto;
- Avise com antecedência sobre mudanças: a previsibilidade traz segurança e organização mental;
- Reforce positivamente de forma simples e sincera: elogios objetivos ajudam no aprendizado e na autoestima;
- Valorize a individualidade: cada pessoa autista é única em seus comportamentos, ritmos e formas de se comunicar.
Crises Sensoriais
Um ponto fundamental nas palestras proferidas pelo professor foi o das “crises sensoriais”, que ocorrem quando a pessoa autista se sente sobrecarregada por estímulos do ambiente (sons altos, luzes fortes, multidões, toques inesperados). Essa sobrecarga causa desconforto intenso e reações diversas.
Sinais comuns de uma crise sensorial incluem gritar, chorar, se jogar no chão, correr repentinamente, fugir do local, repetir palavras/frases/gestos de forma compulsiva, isolar-se ou apresentar agitação intensa.
Como agir diante de uma crise?
As dicas compartilhadas pelo professor Tolentino foram:
- Afaste o público e crie um “espaço seguro”: um local calmo e com poucos estímulos;
- Reduza as luzes e sons do ambiente, se possível: diminuirá a sobrecarga sensorial;
- Fale com calma e em volume baixo: preferencialmente, converse com o acompanhante ou familiar para obter orientação;
- Evite aglomerações: mantenha o ambiente tranquilo;
- Acione atendimento especializado ou primeiros socorros, se necessário: faça isso com respeito e discrição, evitando expor a pessoa;
- O que não fazer é igualmente importante:
- Não julgar o comportamento: gritos ou crises não são “birra”, são respostas à sobrecarga sensorial;
- Não expor ou constranger: preserve a privacidade da pessoa;
- Não exigir contato visual: algumas pessoas com TEA evitam o olhar direto;
- Não ignorar o acompanhante: ouça e respeite suas orientações.
Fundamental:
Evite conter fisicamente a pessoa, a menos que haja risco de se machucar. Entenda que a crise é involuntária, uma resposta à sobrecarga. Ofereça apoio emocional após a crise, respeitando o tempo e espaço da pessoa, e observe sinais prévios para tentar prevenir futuras crises ajustando o ambiente ou a rotina.
A mensagem final do professor Tolentino foi sobre a importância do agir conscientemente: “Pequenas atitudes podem transformar o ambiente e a experiência de todos no shopping. Sejam agentes de uma boa mudança!” O conhecimento compartilhado visa capacitar a sociedade para interações mais inclusivas e empáticas com pessoas autistas.
Leia mais sobre o ciclo de palestras nos links a seguir:
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Jornalismo OAB/DF
